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April 29, 2009

Por dentro

oryxandcrake.jpg

Sim eu sei, esta imagem já apareceu por aqui. Mas agora surge por outras razões.
No distante ano de 2004 passei mês e meio em Nova Iorque, durante o início do verão. A ocasião operou na época uma musculada transformação na forma como encarava o meu trabalho. Talvez por causa de me ter afastado durante uns tempos do espaço do quotidiano, talvez por me ter cruzado com uma cultura onde o tipo de trabalho que desenvolvo não é assim tão fora do comum, talvez por milhares de outras razões, o que é certo é que a transformação ocorreu e surgiu-me de forma mais nítida qual a direcção a seguir. Este foi o primeiro desenho que fiz assim que me sentei ao estirador depois de regressar. Ele é ainda para mim a imagem de renovação, e um símbolo de exultação interior que é muito difícil de manter, e que quando surge resulta em excelentes momentos criativos. Eu não acredito em inspiração, acredito sim em trabalho. Tal como não acredito em originalidade e acredito sim num constante interesse e conhecimento da produção cultural da nossa civilização. E acredito ainda neste desenho e em tudo o que ele me deu.
Apesar de tudo ele teve uma carreira difícil. Tendo sido feito também como possível proposta de capa para a revista Nada, foi editorialmente recusado pois foi interpretado como exercendo um ponto de vista negativo sobre a manipulação genética, assunto que tem sido recorrentemente coberto por esta publicação (mais exactamente, a relação entre arte e genética). O desenho é realmente ambíguo, também porque eu queria que fosse. Na altura, tinha acabado de ler o livro "Oryx and Crake" (ver aqui e aqui) da escritora Margaret Atwood, e ainda tinha a psique ocupada pelo mundo pós-apocalíptico que ressumava da exterminação global, onde a natureza forrava de novo a superfície do planeta com uma inocência improvável. Partilhando a herança da terra e servindo como testemunho da humanidade e da sua ciência, ficavam então diversos seres por nós modificados. Entre esses estavam os Pigoons, que vieram a ser a referência não objectiva (pois não há uma relação descritiva entre ambos), para o porco que aparece na ilustração.
Este desenho resultava então numa reflexão pessoal sobre a ideia de transformação praticada pelo homem nos seres vivos; sobre a necessidade de criar alimentação para uma população social e economicamente desigual, mas imparável no seu crescimento e envelhecimento sustentado; sobre tudo aquilo que já não é ficção científica e que existe sem nosso conhecimento no nosso dia-a-dia, proveniente de granjas, suiniculturas, aquiculturas, etc; sobre todas as questões estéticas que me são colocadas pelo desenvolvimento tecnológico e pela expressão de uma natureza que me parece silenciosa, mas nunca apaziguada. Talvez fizesse sentido então a recusa de publicação. O desenho colocava demasiadas questões de cariz político e ético para um projecto editorial que tem ele já uma política definida para este conjunto de coisas, filtrada por um ponto de vista em que a prioridade era colocada na óptica da criação de significado a partir do projecto artístico. Posteriormente continuamos a colaborar com mais diálogo a anteceder o concretização do trabalho.
Este desenho ficou então orfão, sendo apenas exibido na exposição de desenho e ilustração, "Zurzir o Gigante", que decorreu em Dezembro de 2005 no espaço da Interpress em Lisboa, tendo tido direito a uma moldura barroca, cedida pelo André Lemos.
Mas posto este tempo todo, eis que regressa.
Por causa de um contratempo, a sala de espectáculos/discoteca Music Box de Lisboa necessitou subitamente de uma ilustração para o programa do próximo mês, e questionou-me acerca do meu arquivo de imagens. O resto adivinha-se. Assim, este desenho que esteve 4/5 anos por estrear editorialmente, vai agora conhecer ampla divulgação. Já não era sem tempo.

Entretanto, o original deste desenho vai fazer parte de uma exposição de +/- trinta originais do meu trabalho, incluída no Festival de Banda Desenhada de Beja (cujo site ainda não está actualizado) que começa em 30 de Maio.
Esta exposição reflecte sobretudo a minha curta, mas mesmo assim existente, produção de banda desenhada, tendo sido também adicionados alguns originais de ilustrações onde esta linguagem é evidente. Procurei construir uma exposição que cobrisse de forma cronológica muito daquilo que tenho feito ao longo dos anos. Assim, o que vai estar exposto cobre um ciclo de mais de dez anos, o que faz com que lá se encontrem trabalhos pouco conhecidos pelo público em geral. Brevemente apresentarei aqui mais informações.

Até lá, o pleasepatronizeoursponsors recomenda vivamente o livro Suttree do escritor Cormac McCarthy, recentemente traduzido para português, e editado pela Relógio de Água. Acabei de o ler há uns dias, e é um livro extraordinário.

Publicado por João Maio Pinto às 12:10 AM | Comentários (0)

April 27, 2009

Consigo ouvir a erva a crescer

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Depois de mais uma prolongada fase de ausência, o pleasepatronizeoursponsors regressa com algumas novidades. Aproveito também para pedir desculpa a todos aqueles que têm enviado mails e correspondência diversa pela falta de feedback. Abraço e até já.

Publicado por João Maio Pinto às 08:16 PM | Comentários (0)

April 06, 2009

Debaixo do signo de Escorpião

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Lisboa prepara-se para ter em breve alguns eventos relacionados com Kenneth Anger, que para muitos será um desconhecido, apesar de ser uma figura de proa da cultura underground, e ser conhecido por exemplo, por ter sido uma inluência para David Lynch. Antes disto tudo (exceptuando o facto de ser uma influência para David Lynch), incidentalmente a Chili Com Carne prepara-se para editar um livro acerca do trabalho deste autor, escrito por Ondina pires. Chama-se "Scorpio Rising, Transgressão Juvenil, Anjos do Inferno e Cinema de Vanguarda", e tem uma capa feita por mim.

Publicado por João Maio Pinto às 05:59 PM | Comentários (0)