« [ r.a.d. 045 ] --- Bip Bip | Entrada | Improptu – Algo de sónico (parte II) »
July 12, 2005
Improptu – Algo de sónico (parte I)

Recordação 1 – Em minha casa havia sempre vinis dos mais variados projectos musicais. Por lá apareciam coisas tão flagrantes como Pink Floyd ou Queen, até coisas mais improváveis (se calhar não tão improváveis), como Alan Parsons Project, Boston, ou outros que não retive. Dessa época tenho uma das minhas recordações musicais mais bizarra: a chegada de um álbum dos Whitesnake a minha casa, vindo emprestado do domicílio vizinho - era habitual esse tipo de trânsito entre as casas da vizinhança (ter irmãos mais velhos tem estas vantagens, cresce-se com muita música em redor, mesmo que posteriormente - e naturalmente -, a pessoa se afaste em direcção a outros cambiantes estéticos). O álbum chamava-se “Slide it In”, e tinha uma capa da família estética de uns Scorpions: Uma gaja, uma cobra, a “erótica subtil” do Hard Rock portanto. Quando eu vi a coisa, não senti qualquer tipo de identificação: muito lustroso, muita simplório para os meus exigentes dez anos. Resultado? – ouvi o raio do vinil até ele ficar quase transparente!
Recordação 2 – Outra vantagem de ter irmãos mais velhos, é que eles trazem para casa todo o género de lixo que normalmente não está ao alcance dos filhos mais novos. O meu lixo preferido eram jornais. Recordo-me de lêr o Blitz de uma ponta à outra semana após semana, sem nunca ter ouvido uma banda que fosse. Lia também a escrítica cinematográfica com avidez – aguardando que os filmes chegassem mais tarde ou mais cedo à televisão; lá onde eu vivia, as únicas salas de cinema já eram há muito o paraíso dos fantasmas e dos ácaros.
Recordo-me bem quando o “Blue Velvet” de David Lynch chegou ao cinema. Os críticos faziam fila nas páginas dos semanários para de alguma forma tentarem fazer futurologia a partir da experiência catártica que acabavam de viver, assim como quem olha para as borras de café no fundo da chávena. O sentimento de urgência que eu sentia nesses artigos não era senão uma tentativa de se plasmarem ao próprio fenómeno – qualquer resenha que fosse feita na época acerca dos dez melhores filmes da história do cinema integraria sempre o “Blue Velvet” claro, uns (poucos) lugares abaixo do habitual Citizen Kane.
Quando finalmente vi o filme de que falo, vivi por instantes em estado de graça, e absorvi resíduos gráficos que me acompanham ainda hoje; vestígios de um cosmos onde os sons surgem abafados pelos nossos próprios sentidos - onde o alheamento e o close-up nos embalam num pesadelo amplificado. Um paraíso artificial, de onde retive dois instantâneos: Roy Orbison (quase um autómato, o José Cid americano), e Alan Splet (ver aqui, e aqui), o engenheiro de som sem o qual não existiria um David Lynch completo no seu momento de fundação.
Recordação 3 – Rádios Piratas – sim, a minha vida teria sido diferente sem as rádios piratas. Lembro-me de ouvir pela primeira vez os temas “Vamos”, “Isla de Encanta” e “Where is my mind” dos Pixies numa rádio amadora qualquer, cinco minutos antes das 23 horas algures no ano de 1988 (ou 99?). Antes disso já tinha ficado a conhecer todo o catálogo da 4ad, Bauhaus, Sex Pistols, Dead Kennedys, Coil, Suicide, The Fall, Sonic Youth, Big Black, entre outros.
Recordação 4 – A aparelhagem mutante que o meu irmão construíu – 4 colunas (ou mais, já nem me recordo) + leitor de vinis portátil (género mala de viagem) + amplificador com um led verde que acendia ao carregar no botão, que subitamente fazia passar o som de altura aceitável, para modo “difusão-sonora-para-todo-o-bairro”. Quase que era possível ver a cal das paredes a estalar!
(continua amanhã)
Publicado por João Maio Pinto às July 12, 2005 05:59 PM
Comentários
É bom recordar o que ficou lá atrás, na altura em que tudo parecia tãããããão fácil! Apesar de tudo...
Publicado por: Gabiru às July 13, 2005 12:48 AM
It misses one U on Bauhaus... (N. do A. - Thankz, assunto resolvido)
Why are you going by the Path ov Nostalgia?
P.M.
Publicado por: Peter às July 13, 2005 12:52 PM
belas memórias...lá onde eu vivia o cinema era como o teu.
Publicado por: alice às July 14, 2005 06:28 PM
Antes (ou depois...) da "aparelhagem mutante" existiu algures entre 85 e 87 um emissor de rádio não menos mutante que ainda deu que falar num raio de 400m (+/-) do famigerado PioXII (Av. FA Lx). Um dos pormenores curiosos das emissões tardias era a dinãmica da frequência em que o dito emissor emitia. Cada vez que se ligava, mudava. Sintonizava-se a olho com o auxílio de um equipamento hi-tech (um rádio...) "et voilá"!, tinhamos rádio pirata pela noite dentro. Durou até que um dia um dito "Oliveira" se encarregou de zelar pela moral e bons costumes da vizinhança e fechou a rádio. Resquícios de tempos antigos...
Como . final. Tirei da net à 2 noites atrás 2 albuns dos Boston, "Boston" e "Don't look back", de 77/78(se não me engano). Foi um regresso aos "meus" 13 anos... sem revivalismos lamurientos. http://www.boston.org/dlb.html: Já agora: a esta hora, Iberrock cá no burgo com Blasted Mechanism, Yellow W Van e Cia (os Xatos dos Xutos!). Não fomos, ficámos em casa. Contingências! Xau!
Publicado por: O mais velho... às July 15, 2005 12:47 AM