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January 10, 2005

"Heaven is a Truck"

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Neste ano que passou, tive finalmente algum tempo de qualidade para ler de seguida vários livros que há muito aguardavam pela minha atenção – esta situação serviu entre outras coisas para descobrir muitos mais títulos, o que me condena portanto a um estado constante de penitência e júbilo. Melhor assim.
Foi deste modo que tive a oportunidade de conhecer – entre outros - os (alguns) livros da Margaret Atwood que entretanto adquiri: nomeadamente “Oryx & Crake”, “The Handmaid`s Tale” e “The Bluebeard`s Egg”. Li também (finalmente) o “Meridiano de sangue ou o crepúsculo vermelho no oeste” de Cormac Mcarthy, edição da Relógio de Água, que representou o apogeu de todo um conjunto de leituras que acabaram por se revelar muito importantes para o meu trabalho. As leituras seguintes estão já em curso.

Estes e outros livros “acontecem” infelizmente com algum esforço, já que é raro dispor de tempo com qualidade para que a leitura ocorra da melhor forma, já que o quotidiano é sistematicamente ocupado por razões de ser onde o tempo em que se lê, se não é luxo é capricho – ler não é trabalhar para os demais. No outro pólo, ocupar o tempo livre com o acto da leitura, é também ainda uma forma de conceber a existência que entra em colisão com a ideia de lazer, para maior parte das pessoas. Faz falta portanto uma cultura do género que na sua ocorrência, teria como primeiro resultado positivo (primeiro entre tantos), o combate ao lugar comum, o esboço de uma comunidade cujo pensamento tenderia a ser sucessivamente criativo e curioso. Enfim, o tempo de leitura no meu entender é algo ao qual eu tenho direito. Um direito cívico, semelhante a tantos outros direitos que devem ser protegidos e defendidos da predação monetária, tal como a água. São chamados os bens essenciais. Tal não acontece, e tende a dissipar-se à mercê de má gestão política que se socorre da sua efemeridade e incipiência para se ilibar de situações com as quais age em aberto e obsceno conluio. O Estado como primeiro defensor dos princípios de cidadania e bens privados, revela-se neste instante e à vista desarmada como um ente autofágico, onde o que escorre para fora são as sobras de um despudorado desinteresse pelo outro e pelo bem comum. Perante as necessidades elementares, teremos sempre a indiferença. Pior que morrer ignorantes, viveremos em estado de indigência cultural e social, se perdermos a nossa capacidade de afirmação. Esta só subsiste, só se torna realmente assertativa num estado constante de combate à ignorância, boçalidade e conformismo – através da participação e intervenção portanto. Curiosamentea cultura é subestimada através da sistemática erosão dos fundos que lhe são destinados, mas a insistência com que ela é abusivamente tributada, não conhece tréguas – com o prejuízo evidente para todos os profissionais da área.
Perante o ataque constante ao nosso discernimento, e à nossa capacidade de decisão e juízo, conforta-me o desabafo de Gonçalo M. Tavares na entrevista ao “Mil Folhas” do jornal Público quando ele refere “… quero só estar vivo.”, perante a iminência real de que a nossa existência não se emancipe da superfície de uma certa realidade - o reino dos encriptados impressos das finanças, dos funcionários que nada sabem, dos seus superiores que na sua confortável distância ainda sabem menos, de todos aqueles documentos sem rosto que nos dizem: ou isto, ou nada. Mais que um desabafo, entendo esta invectiva como a proposição de um ponto de fuga – a não omissão da nossa existência daquilo que realmente nos leva a conceber uma perspectiva absolutamente pessoal e distinta, que se possa assumir como particular. O encontro do indivíduo consigo próprio.
Li com prazer toda a entrevista do supra-citado autor. Vou agora ver se o conheço de outra forma adquirindo um dos livros que ele publicou, e que foram muitos.

Publicado por João Maio Pinto às January 10, 2005 03:31 PM

Comentários

meu amigo, o que sugere? os 20 minutos de leitura obrigatória? parece-me um bocado 1984!
faça como eu, desista da TV e verá quanto tempo ganhará!!!

Publicado por: Marcelo às January 11, 2005 11:05 AM

"Heaven is a Truck" é uma música dos pavement, faixa 10 do "crooked rain crooked rain". cresci a ouvir pavement...

Publicado por: luís às January 11, 2005 03:48 PM

Exactly!

Publicado por: PPOS às January 11, 2005 03:55 PM

andaste a ver as capas dos discos ambiente do brian eno?

Publicado por: miss polymolly às January 11, 2005 06:58 PM