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January 26, 2005

[ r.a.d. 024 ] --- "Temus"

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2ª Nota recolhida do diário de Kracauer, 23 de Dezembro:

"- A vida na base é diversificada ao ponto de se gerarem variadíssimas comunidades constituídas elas próprias por hierarquias nem sempre correspondentes àquilo que existe consumado institucionalmente. Há portanto o poder oficial e o oficioso. Existem também os canais de comunicação entre estes diversos universos que tambem têm este tipo de segmentação, entre superfície e submundo. Estas comunidades encontram-se divididas sobretudo pelas actividades às quais cada uma se dedica em específico.

Temos então a comunidade científica - pouco coesa e ela própria entregue a intensa clivagem entre postos de chefia, embora seja esta que ostenta alguns dos principais poderes de determinação em relação a tudo um pouco; desde a alimentação até ao escalonamento dos diversos indivíduos. A líder deste grupo dá pelo nome de Mimi, que sendo a primeira chefe civil da base, e estando no seu cargo há apenas quatro meses, demonstra já grande vocação para este tipo de posto; até talvez mais do que para cientista.

Os soldados - poucos e iliterados (exilados como foram para estas paragens, não era de adivinhar que fossem alunos da academia - há no entanto uma excepção, da qual falarei a seu tempo). Dão-se mal com o aspecto matriarcal que a chefia da base assumiu depois da exoneração do anterior comandante - por abuso de poder e alcoól -, que eles apesar de tudo reconheciam como uma figura de chefia. Uma atitude um pouco pavloviana, mas que fazia com que eles na época tivessem unidos de uma forma como hoje não estão. Neste momento perdem-se em rixas "territoriais" à procura de um novo líder entre eles. É minha esperança que não entrem em hibernação e que não tenham época de cio.

Temos a classe dos serviços - cozinheiros, lavandaria, etc..., um conjunto de indivíduos pouco simpáticos e com o poder que o serviço que eles desempenham obviamente suscita; e que não é nada menosprezável: é através deles que circula todo o mercado negro. Como representantes da economia paralela, dependem deles diversos aspectos do bem estar da comunidade, sobretudo aqueles ligados ao ócio e prazeres privados. São também poucos, mas organizados.

Entre outras comunidades que se podiam ainda destacar - que apesar de tudo são mais desprezíveis pois são constituídas cada uma por pouquíssimos indivíduos -, talvez a mais importante seja a dos mineiros. É a comunidade mais numerosa e a que mais exige que funcionem bem todos aqueles meios que contribuem para a obtenção de índices positivos de sustentabilidade social, dos quais já se encontaram alguns supra-citados. É uma comunidade que embora seja chefiada por um encarregado superior, tem um líder verdadeiro deslocado da existência institucional: um indivíduo de meia idade chamado Pangallan. Graças a este, todo o grupo funciona de forma extremamente coesa e organizada. O Thor chama-lhes com alguma piada "O exército das trevas", e é de opinião que quando eles deixarem de ser "toupeiras" (outra alcunha), irão concerteza constituír-se como um grupo de crime organizado."

Publicado por João Maio Pinto às January 26, 2005 12:44 PM